08-20-12

Urbanizados

Brasília é uma cidade inspirada em conceitos urbanísticos modernos. Nova Iorque foi uma cidade reestruturada e praticamente reconstruída sendo pensada de uma visão de cima. Stuttgart deveria estar na linha de trem-bala que liga Paris e Beirute. Pequim precisava ser remodelada rapidamente para dar conta do desenvolvimento do país.

Todas essas cidades tiveram seus processos urbanísticos focados no progresso, no desenvolvimento, na expansão. Com muito (como Brasília) ou pouco planejamento (como Pequim), todas elas modificaram suas estruturas baseadas apenas na macro-estrutura, e não na micro. As pessoas que morabam embaixo das grandes construções de concreto foram esquecidas.

Brasília é uma péssima cidade para se locomover a pé. Nova Iorque teve que perder grande parte de sua história para que uma moradora lutasse contra o grande especulador. Stuttgart demoliu prédios históricos para que a sociedade não mais elegesse o governo do desenvolvimento a qualquer custo. Pequim usou um modelo estadunidense do século XX para construir as cidades chinesas do século XXI, excluindo todas as diferenças que existem entre ambos.

O documentário “Urbanized” (também realizado por meio de financiamento coletivo) explica e mostra diversos exemplos de cidades e seus processos urbanísticos, apontando os erros e acertos de cada grande mudança das políticas públicas que promoveram mudanças estruturais na vida dos moradores das cidades.

Dá para conhecer, por exemplo, a iniciativa de moradia social, no Chile, que possui um processo de design participativo. Em vez dos governos construírem habitações pré-fabricadas e todas iguais (como o Cingapura e mutirões de habitação), chamam as famílias para decidir o que ter ou não na casa com base no orçamento disponível. Para cada unidade, há $ 10.000 para se gastar. A partir daí, a família, junto com representantes do governo, escolhem quais infraestruturas terão ou não. Um exemplo dado no documentário (por mais estranha que seja a dicotomia entre as opções) é que os moradores que decidem se querem água quente ou uma banheira. E, estranhamente, quase 100% prefere a banheira à água temperada. O que parece ser apenas ostentação, na verdade, condiz com a realidade precária que a família vive: acostumados a tomar banho com baldes de água gelada, colocar um aquecimento de água sginifica ter que arcar com mais uma conta, a do gás. Então, prefere-se que o governo instale as banheiras e, quando a família tiver condições de arcar com o custo, instala-se o aquecimento.

O filme também explica o processo de Detroit, nos EUA, que em vez de crescer ou expandir – como se espera das cidades centradas em uma sociedade capitalista -, encolheu. De mais de 2 milhões de habitantes passou a ter cerca de 750 mil. Diversas casas abandonadas e queda na qualidade de vida. Mas, desse processo, surgiram movimentos sociais para, por exemplo, reduzir os gastos com alimentação. Uma vez tendo terrenos abandonados, por que não cultivar alimentos próprios ou criar pequenos animais para consumo da comunidade? E, aí, se encontram vários jardins comunitários que podem ser cultivados e colhidos pelos moradores ao redor.

Mas a cidade que mais impressiona é Stuttgart, na Alemanha. O governo que estava há 58 anos no poder criou um projeto para que se reformasse as linhas de trem, que datam de 1950, para que um trem de alta velocidade que liga Paris, na França, a Beirute, no Líbano, passasse pela cidade. Para isso, era preciso demolir prédios históricos, praças e árvores que datavam mais de 200 anos. Era o meio do governo de “revitalizar” a região, trazendo uma “nova luz” para a área. A população, mesmo protestando contra, foi violentamente açoitada e perdeu uma das batalhas que era proteger as praças. O argumento do governo é que o projeto já existe há muitos anos e que várias vezes se organizou participações populares para opinarem no projeto, então, não podiam parar agora. A sociedade, porém, afirma que o projeto entrava e saía da pauta a todo momento, o que impossibilitava com que a população se envolvesse mais ativamente em todo o processo. Será que há alguma semelhança com São Paulo? Mas, na eleição seguinte, depois dos 58 anos, a população elegeu um representante da oposição, o primeiro do partivo verde alemão, principalmente por causa da rejeição ao projeto de revitalização governamental.

No fim, sempre há uma alternativa.

O documentário faz parte de uma trilogia bastante interessante de documentários sobre design, que incluem também os títulos Helvetica e Objectified. Procurando rapidinho pela internet, acho que você pode fazer o download aqui, mas ainda não tenho certeza se há legenda em português (quem for o primeiro a baixar, dá um toque aí, gente!).